O que é a iluminação

“A iluminação é ver com clareza o Aqui e Agora – nada mais do que isso – sem todas as falsas aparências ou sem todos os filtros que acompanham habitualmente os nossos processos mentais. É algo tão simples que leva a que a maioria das pessoas, no início da sua prática, alimentem a esperança inconsciente que seja algo mais. Mas milhares de anos de vida indicam que o que há de mais profundo ou fundamental é termos a experiência do universo, agora mesmo, tal qual ele realmente é, em vez de sermos levados pelo que o nosso pensamento, ávido e discriminativo, espera ou teme que seja o universo.

A iluminação nada tem a ver com obter algo, mas em renunciar ao apego aos nossos diálogos e “guiões” interiores, às nossas conceptualizações, vícios mentais, amores, ódios, à ideia do nosso eu separado da totalidade da existência. A iluminação não implica que não aconteçam coisas ruins. Mesmo que se alcance a iluminação e o corpo e a mente acabem por se fundir, há ainda que continuar a deitar fora o lixo e a lavar a louça. “

Do artigo “Fundamentos da meditação Zen

Meditação zen

Um texto muito completo, traduzido pelo José Eduardo do site Open Way, agora disponível no E-Dharma em formato pdf

Não há nenhum lugar para onde fugir

still lifeUma das coisas que te apercebes quando observas a natureza do eu é que aquilo que fazes e o que te acontece são a mesma coisa. Ao te aperceberes que não existes separadamente de tudo o mais, percebes o que é a responsabilidade: és responsável por tudo o que experimentas. Não podes voltar a dizer, “Ele enfureceu-me” Como é que ele pôde enfurecer-te? Só tu podes enfurecer-te. Compreender isto faz mudar o modo de te relacionares com o mundo e de lidares com a tensão. Então apercebes-te que a tensão, que em geral tem a ver com separação, é criada pelo processamento mental das tuas experiências. Sempre que surge uma ameaça, um contratempo, um entrave, a nossa reacção imediata é rejeitar, é prepararmo-nos mentalmente ou fisicamente para lutar ou fugir. Se te tornas no bloqueio – no medo, na dor, na cólera – e o vives plenamente, sem julgares ou sem fugires, deixando-o ir, deixa então de haver bloqueio. Na realidade não há maneira de saíres dele; não podes fugir. Não há nenhum lugar para onde fugires, não há nada donde fugires: és tu.

John Daido Loori 

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Porquê meditar

Diz-se que a meditação pode trazer benefícios físicos e mentais a quem a pratica com regularidade. Segundo estudos médicos, os seus benefícios variam entre o desenvolvimento da capacidade de concentração e de raciocínio a melhorias na actividade do sistema imunitário, a alívio de insónias e problemas relacionados com tensão alta. Os praticantes Zen não deixam, porém, de contrair doenças, de sofrer, de morrer. A meditação não é um meio para se alcançar a imortalidade física ou para se libertar das leis da natureza. 

Somos o que pensamos
Tudo o que somos provém
dos nossos pensamentos.
Com os pensamentos
Fazemos o mundo

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Sandokai

Sandokai - A Identidade do Relativo e do Absoluto 

A mente do grande sábio da Índia
é intimamente transmitida de Oeste a Este.
Enquanto entre os seres humanos há sábios e tolos
na Via não há patriarcas do Norte ou do Sul.
A fonte espiritual é clara e luminosa,
os afluentes correm através da escuridão.
Apegar-se às coisas é ilusório,
encontrar o absoluto não é ainda a iluminação.
Um e Todos, as esferas subjectiva e objectiva,
estão relacionados e ao mesmo tempo independentes.
Estão relacionados mas trabalham de modo diferente,
cada um mantém o seu próprio lugar.
O carácter e a aparência variam na forma,
os sons distinguem-se entre harmoniosos e desagradáveis.
A obscuridade faz as palavras iguais,
a luz distingue as frases boas e más.
Os quatro elementos retornam à sua natureza
tal como uma criança para a sua mãe.
O fogo é quente, o vento move-se,
a água é líquida, a terra sólida.
Os olhos vêem, os ouvidos ouvem,
o nariz cheira, a língua saboreia o salgado e o doce.
Cada um é independente do outro
como folhas nascidas da mesma raiz,
causa e efeito devem regressar à grande realidade.
As palavras alto e baixo são usadas de modo relativo.
Na luz existe a escuridão
mas não tentes compreender essa escuridão,
na escuridão existe a luz
mas não procures essa luz.
Luz e escuridão formam um par,
como o pé adiante e o pé atrás ao andar.
Cada coisa tem o seu valor intrínseco
e está relacionada com tudo o resto em posição e função.
O relativo e o absoluto ajustam-se
como uma caixa e a sua tampa.
O absoluto funciona em conjunto com o relativo
como duas flechas que se encontram em pleno ar.
Ao ler as palavras deves perceber a grande realidade.
Não julgues por quaisquer critérios.
Se não vês o caminho
não o vês mesmo ao andares nele.
Quando percorres a Via
não estás perto nem longe.
Mas se andas iludido estarás a rios e montanhas de distância.
Digo respeitosamente, aos que querem a iluminação
”noite e dia, não percam tempo”.
 

autor: Sekito Kisen, o 35.º patriarca
tradução: João Rodrigues, Margarida Cardoso
(este texto faz parte dos cânticos diários de muitos centros zen)

O Zen

O Zen é uma prática de meditação que se desenvolveu na Índia e na China (aí conhecido por Chan) e faz parte de uma antiga tradição com 2.500 anos fundada por Siddharttha Gotama. Este viria a ser conhecido por “Buda,” que significa simplesmente o “desperto”, e que viveu e morreu como um ser humano e não como um deus objecto de veneração. O Chan irradiou da China para a Coreia (aí conhecido por Son), para o Japão (por Zen) e para o Vietname (por Thien). Nos últimos quarenta anos, aproximadamente, criou raízes em muitos outros países.

 Muito embora a escola Zen se conforme em todos os aspectos aos ensinamentos tradicionais budistas, possui uma espontaneidade que desafia a ortodoxia espiritual tradicional.

 O Zen é uma prática de transformação dos processamentos mentais pela atenção dada ao presente. Pratica-se em todas as circunstâncias, no acto de mudar o babete a um criança, numa reunião de trabalho com colegas, num engarrafamento, a cortar legumes para o jantar, ou sentado no topo de uma remota montanha.

Conhecemos este Agora? Se responderes que “sim”, ignoras este Agora (este tu mesmo), porque este Agora nunca antes apareceu! Nunca aconteceu e nunca o experimentámos. Isto é totalmente novo e uma vez aqui na eternidade

Hôgen Yamahata

Jornadas Zen

Introdução ao Zen com sensei Amy Hollowell:
sexta-feira, dia 2 de Março, às 20h30 (introdução à meditação Zen)
sábado dia 3, das 9h00 às 19h00,
domingo dia 4, das 9h00 às 15h00 (termina depois do almoço) na UBP Porto

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Avisos Zen de Mumon


Observar o que está estabelecido e cingir-se às regras é prender-se sem uma corda.
Agir livremente ao sabor dos caprichos é fazer como os heréticos e os demónios.
Reconhecer a mente e purificá-la é o falso zen do sentar silencioso.
Dar-se rédea solta e ignorar as condições interrelacionadas é cair no abismo.
Estar alerta e sem ambiguidades é utilizar correntes e uma canga de ferro.
Pensar no bem e no mal pertence aos céus e aos infernos.
Ter uma visão de Buda e uma visão do Dharma é estar confinado a duas montanhas de ferro.
Aquele que apercebe um pensamento assim que este surge é alguém que esgota a sua energia.
Sentar-se inconsciente em quietude é a prática dos mortos.

Se avanças, afastas-te do princípio, se recuas, contrarias a Verdade. Se nem avanças nem recuas, és um cadáver que respira.

Diz-me então - o que vais fazer?

Não pensar

Intervalos

Tenho estado brutalmente ocupada. A parte interessante, é que praticamente só dá mesmo para trabalhar e dormir; não há lugar para crises existenciais ou outras, não há angústia e qualquer momento de descanso (até as pequenas abertas de sentar em meditação), é tão bem-vindo que apetece ficar ali para sempre. Depois, sei que nada dura para sempre; depois será outra coisa, outra fase, outro ciclo. E gosto dessa liberdade que é a impermanência.

A história de Hui Neng

Desta vez, um dos principais temas de discussão foi a história de Hui Neng na versão Wikipedia:

Quando o Quinto Patriarca, Hongren (em japonês, Daiman Konin, 601-647), decidiu escolher quem o sucederia, propôs a seus discípulos que tentassem captar a essência do Zen em um poema; o autor do melhor poema seria seu sucessor. Quando receberam a notícia, os monges já sabiam quem seria o vencedor: Shenxiu, o aluno mais antigo de Hongren. Ninguém se deu ao trabalho de competir com ele. Apenas esperaram, e Shexiu escreveu seu poema e o pendurou na parede:

“Este corpo é a árvore de Bodhi.
A alma é como um espelho brilhante.
Toma cuidado para que sempre esteja limpo,
não deixando o pó se acumular sobre ele”.

Todos os monges gostaram. Com certeza Hongren também iria gostar. Entretanto, no dia seguinte havia outro poema pendurado ao lado, que alguém havia pregado durante a noite:

“Bodhi não é como uma árvore.
O espelho brilhante não brilha em parte alguma:
Se nada há desde o princípio,
Onde se acumula o pó?”

Os monges ficaram assombrados. Quem teria escrito aquilo? Depois de algum tempo, descobriram: o autor do poema era Huineng, o cozinheiro do monastério. E, percebendo sua realização, foi a ele que Hongren estendeu seu manto e sua tigela, fazendo de Huineng o Sexto Patriarca.

Nota: nestas últimas sessões caiu de pára-quedas William Gavião na UBP, que apresenta Demonerum 121 na câmara de Matosinhos, no próximo fim-de-semana - basta reservar os bilhetes, a entrada é gratuita!

“O Zen desafia qualquer definição: nem é uma religião, nem uma filosofia, nem um sistema de pensamento, nem uma doutrina, nem uma crença.
A meditação Zen, como prática de base, ajuda-nos a experimentar
o que não pode ser definido: o instante presente, aqui, agora.”

Amy Hollowell sensei

Às quartas-feiras, no círculo de partilha na UBP, decidimos “estudar” o Zen. Claro que o primeiro problema é que o Zen de uma certa forma não é “estudável” :)  A discussão foi à volta dos quatro aspectos geralmente apresentados como possíveis “definições”: … continue reading this entry.

Zazen

No Zazen não devemos ter expectativas. Zazen não é uma técnica para obter o que quer que seja, é muito mais natural do que isso. No entanto, as coisas mais naturais são por vezes as mais difíceis. E porquê? Porque pensamos. Não há nada de errado com o pensamento. Pensar é um processo muito natural, mas deixamo-nos condicionar muito facilmente pelos nossos pensamentos e damos-lhes muito valor. Tentamos cuidar de nós mesmos, da estrutura do nosso ego, através do pensamento. Pensar é uma abstracção. Não é ser, é pensar sobre ser. E uma vez que nascemos e morremos sete mil vezes por segundo, as condições que pensamos já desapareceram. Pensamos acerca de sombras em vez de sermos a própria vida.

Taizan Maezumi Roshi (1931-1995)

Mais leituras Zen no site Daruma.


O Zazen não vos pertence

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Lemos no sábado um pequeno trecho de Folhas caem, um novo rebento. Ficou-me esta frase:

 Não se preocupem, não se apeguem ao vosso minúsculo sentido de luta.

Ao saber que o comboio…

Ao saber que o comboio
suporta todo o peso,
por que haveriam
os passageiros de carregar
desconfortavelmente no colo
os sacos de viagem,
em vez de os colocar ao lado
e ficarem perfeitamente à vontade?

Ramana

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